Um lançamento despretensioso
O vestido de tubo preto, a delinear as curvas e a fazer contraste com a pele branca, ensaiava em meus devaneios acontecimentos que só viriam a se realizar no findar da noite. O evento foi um sucesso; os leitores, chateados, reclamavam no “X” que haviam ficado até o final e não conseguiram um autógrafo.
A cena mais engraçada da noite foi quando o governador do Estado, ao ter a presença registrada pela cerimonialista, sem querer derrubou suco de laranja em seu paletó. Ele estava conversando com o secretário de cultura alguma coisa sobre pedras portuguesas.
O Palácio da Justiça parecia pequeno para a proporção do evento; toda vez que Mário Printes visitava Manaus era esse farfalhar. Após vencer três edições do Prêmio Jabuti, se mudou para a Cidade Maravilhosa e só aparecia na Paris dos Trópicos a cada 5 anos, como um cometa, sempre a lançar uma obra nova.
Robson, homem de confiança, sussurra em seu ouvido que o carro já estava pronto. Suas mãos já estavam cansadas, era preciso partir; a fila, ainda longa, geraria frustração nos que ficaram até o final e a esperança do autor era que a qualidade da obra atenuasse um pouco a decepção.
Após agradecer a presença dos que ainda estavam lá, tirar algumas fotografias e a observar pelo canto dos olhos a mulher que o esperava, Mário bebeu um gole da água que repousava sobre a mesa e foi em direção àquele olhar. Está com fome? Ele pergunta após a puxar pela cintura num abraço, dar um beijo em sua têmpora esquerda e segurar sua mão. Ela respondeu que sim e então os dois caminharam de mãos dadas para o carro; escritor abriu a porta do veículo para a sua musa e, enquanto ela entrava, abotoou o paletó, acenou para alguns jornalistas e leitores chateados e entrou em seguida.
A minha mão direita pousou sobre a coxa esquerda dela num gesto sutil, mas o meu olhar ainda lastreava as mazelas do Centro da cidade. O pouso foi sutil e nem parecia que as minhas mãos nunca haviam estado lá; era o nosso primeiro encontro. Sempre gostei da arte da insinuação e a forma como ela reagia aos meus estímulos me davam a permissão que eu queria.
Olga me perguntou o que eu havia planejado para a nossa noite e eu respondi que era surpresa. Nesse instante, retirei a minha mão da sua coxa e a envolvi num abraço. “Não se apressa a arte!”, continuei, enquanto a desafiava com o olhar. “Você fala como se eu fosse a única apressada…”, seu olhar foi ao encontro da sua coxa em referência ao meu gesto anterior. “Obrigado, Seu Robson! Após estacionar o carro, deixe a chave na mesa, por favor, já chega de protocolos por hoje. E você está proibido de ficar à espreita com o pessoal. Estão todos dispensados. E eu vou saber se algum carro da escolta me seguir. Boa noite.”
Sem entender nada, Olga retocava o batom, ajustava o vestido de tubo que havia subido um pouco e enfim saía do carro com a ajuda de seu novo amante. Ele a tratava como a princesa que ela acreditava ser e estava ansiosa com o desdobrar daquela noite. Em seu íntimo, ela se perguntava que pessoal era esse e qual era a necessidade de tanta segurança. Foi naquele momento que Olga percebeu que ele não era só um escritor.
O jantar
O restaurante estava tranquilo, e o som suave do jazz instrumental preenchia o espaço entre nós. Olga observava o ambiente por alguns segundos antes de voltar seus olhos para mim, os dedos brincando levemente com a borda da taça de vinho.
“Então, Mário… como é realmente viver entre dois mundos? O escritor aclamado por um lado, e o homem que quase ninguém conhece do outro?”, ela perguntou, o tom casual, mas a curiosidade afiada nos olhos.
Sorri, recostando-me na cadeira, avaliando sua pergunta com cuidado. O vinho girava lentamente na taça em minha mão, e eu sentia o peso de suas expectativas.
“Dois mundos, Olga? Eu diria que são apenas diferentes formas de olhar para o mesmo”, respondi, deixando o silêncio preencher o espaço por alguns segundos antes de continuar. “O que mostro e o que guardo são escolhas que faço, assim como qualquer um. Mas talvez o segredo seja saber o que esconder.”
Ela inclinou-se levemente para frente, apoiando o queixo na mão, seus olhos avaliando cada palavra. “Ah, mas você esconde tão bem, não é? Nem parece ter segredos… Até que começam a aparecer, claro.”
Seu comentário flutuou entre nós como uma provocação sutil. Meu sorriso permaneceu no rosto, mas dentro de mim, sabia que ela estava testando os limites. Olga era mais atenta do que deixava transparecer, e a forma como ela conduzia a conversa era a prova de que, de fato, estava buscando algo.
“Talvez você esteja tentando ver mais do que existe”, rebati, mantendo o tom leve. “Às vezes, o mistério é só uma ilusão.”
Ela riu suavemente, mas não respondeu. Ficamos em um silêncio confortável, até que meu celular vibrou no bolso. Olga notou, mas seu olhar permaneceu fixo na taça de vinho, fingindo desinteresse.
Olhei para o visor por um segundo antes de me levantar. “Com licença, preciso atender.” Afastei-me da mesa e caminhei até um canto mais reservado do restaurante.
Atendi a ligação. Ninguém falou do outro lado, mas o silêncio tinha uma presença quase palpável. Eu sabia o que aquilo significava.
“Está tudo bem por aqui”, murmurei, após alguns segundos de quietude. A linha continuou em silêncio, mas não havia necessidade de mais palavras. Desliguei logo em seguida e respirei fundo, ajustando o paletó antes de voltar à mesa.
Quando me sentei, Olga ergueu uma sobrancelha, o leve traço de um sorriso brincando em seus lábios.
“Algum problema?”, ela perguntou, a voz casual, mas os olhos atentos.
“Nenhum problema”, respondi, relaxando na cadeira, voltando a segurar a taça. “Apenas algo que precisava ser resolvido.”
Ela me observava, e eu sabia que aquela curiosidade, embora controlada, era uma faca afiada. O que ela sabia? Quanto estava disposta a descobrir?
“Você sabe, Mário, tem algo em você que sempre me intrigou. Mesmo quando você está em silêncio, parece que está escondendo algo.” Ela girava o vinho lentamente na taça, os olhos fixos no movimento do líquido. “Um homem como você, com todo esse cuidado… eu diria que os seus segredos são muito bem guardados.”
Olhei para ela, mantendo o tom descontraído. “Segredos? Todos têm alguns. Mas quem sabe, talvez os meus não sejam tão interessantes quanto você imagina.”
“Dúvido”, ela disse, o sorriso ampliando-se enquanto me encarava com uma curiosidade quase palpável. “Acho que você é mais do que mostra. Ou pelo menos, gosta que as pessoas pensem que não há muito a descobrir.”
“Ou talvez você esteja tentando ver mistérios onde não há”, devolvi, o olhar fixo no dela. Era um jogo perigoso, e nós dois sabíamos disso.
O jantar terminou com mais trocas de palavras sutis, como se cada frase fosse uma tentativa de abrir uma porta trancada. No final, levantei-me e a ajudei a sair da cadeira. Olga, sempre elegante, ajustou o vestido de tubo com um leve movimento, o olhar permanecendo fixo no meu, como se quisesse descobrir o que mais aquela noite guardava.
“Então, Mário… qual o próximo passo?”, ela perguntou, enquanto retocava o batom.
“Agora é hora de seguirmos para o nosso destino”, respondi, pegando sua mão com um leve sorriso. “Talvez você encontre as respostas que está procurando.”
Ela me observou por um instante, antes de soltar um suspiro quase inaudível. “Será que estou preparada para elas?”
Abri a porta do carro para ela, e enquanto entrava, meu olhar se perdeu por um segundo nas luzes da cidade. Algo me dizia que a noite estava longe de acabar, e que ambos estávamos apenas começando a descobrir o que realmente estava escondido entre nós.
O carro deslizou pelas ruas da cidade em um silêncio confortável, mas carregado de uma tensão sutil. Olga estava ao meu lado, mas eu podia sentir que, no fundo, ela não estava apenas curiosa sobre mim. Havia algo mais, algo que ela escondia tão bem quanto eu guardava meus próprios segredos.
Tropical Hotel
Quando chegaram ao Tropical Hotel, a atmosfera da noite parecia ganhar uma nova densidade. A entrada imponente do hotel, com suas colunas majestosas e a arquitetura clássica, contrastava com o vibrante cenário natural de Manaus. A fachada iluminada por luzes suaves realçava a beleza rústica do entorno amazônico, enquanto o hall, com suas plantas exóticas e móveis de madeira escura, recebia os hóspedes com uma elegância sutil.
A recepcionista os aguardava com um sorriso cordial, e Mário, sempre discreto, deu um rápido aceno. Eles seguiram diretamente para o elevador, o som abafado dos saltos de Olga ecoando pelo mármore polido. O caminho até a suíte presidencial foi silencioso, e o ar parecia carregado com algo além de expectativas. Mário pressionou o botão do elevador sem desviar o olhar de Olga, que, por sua vez, ajeitava o vestido de tubo, mantendo uma aura de mistério.
Ao entrarem na suíte, o espaço parecia maior ainda sob a iluminação suave que se espalhava pelos cantos. A suíte presidencial do Tropical Hotel era, sem dúvida, impressionante. Olga passou os olhos pelas enormes janelas de vidro que revelavam a escuridão do Rio Negro, quase imperceptível àquela hora da noite. O reflexo das luzes da cidade ondulava sobre a superfície da água, criando um espetáculo silencioso.
“É aqui que você gosta de ficar quando vem a Manaus?”, ela perguntou, com a voz quase um sussurro, seus olhos ainda explorando o espaço. A cama, com seus lençóis brancos impecáveis, ocupava o centro do quarto, e ao lado, uma mesa de mármore com uma garrafa de vinho aguardava por eles.
Mário apenas sorriu, caminhando até a mesa e servindo uma taça para cada um. “Sim. Este lugar oferece… o tipo de privacidade que gosto.” Ele se aproximou dela e lhe entregou a taça de vinho, seu olhar fixo no dela.
“Privacidade?” Ela repetiu a palavra como se pesasse seu verdadeiro significado. “É isso que você busca?”, perguntou, enquanto se afastava lentamente em direção à varanda, o vento noturno entrando pela porta entreaberta.
Mário se aproximou, ficando logo atrás dela, seus olhos acompanhando os movimentos sutis de seu corpo. “Às vezes, privacidade é tudo o que precisamos”, ele murmurou, antes de levar a taça aos lábios. Olga girou de leve, seu olhar agora firme no dele, deixando a noite amazônica atrás de si. “Será que você precisa mesmo de privacidade, Mário? Ou será que tem algo mais que você quer esconder?” Olga girou de leve, seu olhar agora firme no dele, deixando a noite amazônica atrás de si.
O silêncio entre eles se tornou pesado. Mário, pela primeira vez naquela noite, hesitou levemente, mas logo recuperou o controle. “Talvez sejam apenas velhos hábitos.” Ele deu um passo à frente, encurtando a distância entre eles. “Mas, e você? O que você realmente espera encontrar aqui?”
Ela deu um passo para trás, encostando-se à borda da varanda, onde a vista da piscina privativa e do horizonte escuro a cercava. “Acho que você sabe a resposta”, disse, com um sorriso enigmático, antes de virar-se completamente para ele, sua mão apoiada na grade. “A questão é se você está pronto para revelá-la.”
O sorriso de Mário se alargou, e em vez de responder, ele se aproximou lentamente, pousando a mão na cintura dela, puxando-a para perto. O contato entre os dois fez com que o ambiente parecesse se comprimir ao redor deles, como se o mundo além da suíte deixasse de existir.
“O único mistério que estou interessado em revelar é o que há por de baixo da renda do teu sutiã”, ele sussurrou, os lábios quase tocando a pele dela. A tensão, que desde o começo os envolvia, atingiu seu ponto de ebulição. Olga ergueu os olhos, como se estivesse decidindo algo em sua mente, e então, com um movimento súbito, ela segurou a mão dele, puxando-o em direção à jacuzzi iluminada na varanda.
A água refletia as luzes sutis do ambiente, criando uma atmosfera envolvente e quase surreal. Ela deslizou para dentro da água e seu corpo, agora só de lingerie, desaparecia lentamente sob a superfície, enquanto Mário observava, a mão ainda segurando sua taça de vinho.
Ele colocou a taça sobre a borda da jacuzzi, os olhos brilhando à luz das estrelas. “Acho que ainda estou vestido demais”, o escritor disse, sua voz rouca e carregada de intenção, enquanto começava a se despir. Olga, já farta de tanta provocação, o puxou para dentro da água mesmo com roupa. Havia uma urgência de finalmente se entregar.
O contato dos corpos no calor da água misturava o desejo que haviam alimentado desde o início. A noite na suíte presidencial estava apenas começando, e ambos sabiam que, ali, sob a imensidão da floresta amazônica e o silêncio do rio, segredos poderiam finalmente ser revelados