Lista de compras
A frase de uma leitora, uma vez, me pegou muito. A moça, que a posteriori se tornou um casinho de verão, me disse que eu escrevia tão bem que ela leria até a minha lista de compras. Fiquei assustado. Nunca escrevi nada sobre ela; acho que a literatura é algo que se acontece, não se cobra – e a sua ânsia de ser eternizada na minha escrita era tão grande que acabou por gerar o efeito oposto. Dito isso, em sua homenagem, aqui está a minha lista de compras.
Vinho barato para fingir sofisticação na terça-feira
Ovos, sempre ovos, porque racham mas sustentam
Limão para dar acidez ao peixe e à vida
Tomate, que apodrece rápido demais (tal qual promessas)
Açúcar, que disfarça a falta de afeto no café amargo
Vassoura nova, já que a velha não expulsa lembranças
Iogurte, porque o estômago ainda reclama de ansiedade
Detergente, indispensável para limpar o rastro das noites
Alface, só para fingir equilíbrio numa dieta inexistente
Mas a verdade é mais simples: acabou mesmo. Se a pretensa musa quiser eternidade, que me encontre no corredor do supermercado, entre o café e o papel higiênico – porque, convenhamos, até a poesia precisa ser reposta de tempos em tempos. E, francamente… espero que ela não entenda nada de poesia acróstica.