Crônica

Notícias do Calheiros

maio 8, 2026 · Pedro K. Calheiros

Em visita ao Rio de Janeiro, após um almoço no bar e restaurante Garota de Ipanema, tive uma conversa com Carlos Drummond de Andrade. Por ironia do destino, no meio do caminho tropecei em duas pedras. Foi um daqueles momentos em que o poema ganha forma e acaba por ilustrar a vida sem o saber; o olhar atento perceberá cada detalhe, e o meu, como o de um poeta, achou graça.

Durante a nossa conversa, o poeta carioca me deu notícias do Calheiros. Disse que o nosso estimado poeta e professor amazonense vai bem, que anda comendo sua farofa de charque e, vez ou outra, é flagrado andando de samba-canção pela mansão dos imortais pela madrugada, onde não é muito raro encontrá-lo se deliciando com um pedaço de goiabada com farinha.

Achei graça disso tudo, principalmente porque ele estava me contando coisas que pouquíssimas pessoas sabiam. Comentei que encontrei com Jô Soares na beirada da piscina do Copacabana Palace, e ele me observou, estupefato, como quem me julga. Não entendi. Mudamos de assunto, conversamos sobre muita coisa; ele disse que eu deveria escrever mais, e eu concordei.

A fila de pessoas que aguardava para tirar uma fotografia com meu amigo Carlos era grande e, temendo represálias, logo me apressei a encerrar a nossa conversa. Uma mulher loura, sem entender nada, disse no telefone que estava demorando porque havia um jovem esquisito conversando com uma estátua. Que vida triste ela deve ter, e Carlos, meu amigo, não pareceu ficar ofendido.

O Rio de Janeiro é berço da arte, da cultura e, para um escritor como eu, um oásis para a criação. Tantos e tantos poemas impublicáveis nasceram durante essa viagem e, imerso em toda a eloquência que a minha alma agora reluz, não tenho vontade de escrever mais nada! A palavra é o ensaio da criação e, no momento, quero me fazer mudo. Quero escutar a música que ressoa em cada curva da cidade…

Em cada canto do Rio de Janeiro tenho tido um déjà vu. Devem ser as reminiscências de outra vida vindo à tona…