Crônica

A história do meu primeiro beijo

maio 3, 2025 · Pedro K. Calheiros

Sempre achei curiosa a forma como as pessoas romantizam o tal “primeiro beijo” — como se a vida, por si só, obedecesse às mesmas métricas dos filmes da Sessão da Tarde. Quando me pediram pra escrever sobre o meu, me vi diante de uma bifurcação: o primeiro selinho ou o primeiro beijo de verdade? Um grupo no Twitter disse que beijo sem língua não conta. Minha ex-terapeuta jurava que sim. Preferi fazer justiça aos dois.

O selinho foi com a Carol — nome fictício, mas fiel à lembrança. Não lembro a data, só sei que aconteceu entre corredores de cadernos da papelaria da Saraiva. Eu a abracei por trás, ficamos observando mochilas como se a vida estivesse em pausa, e, de repente, ela virou o rosto e o selinho aconteceu. Foi estranho e bonito. Tímido, talvez deslocado, mas bonito. Liguei pra ela esses dias pra confirmar os detalhes. Hoje somos amigos.

Mas o beijo de verdade… esse foi poético. E triste.

Nosso terceiro e último encontro. Era amor em sua forma mais clandestina. A gente sabia que não teria futuro, e, talvez por isso, tenha sido tão intenso. A ideia era um beijo só. Um beijo de despedida que seria, ao mesmo tempo, o de estreia. Um adeus com gosto de estreia — e talvez por isso tenha doído tanto.

Ela sabia que ia ser a primeira. E teve paciência com a minha falta de jeito.

Nos encontramos, entramos no Uber, e antes mesmo de chegar ao destino, me inclinei para o beijo. Não funcionou direito — o carro balançava, minha boca era um misto de nervosismo e inexperiência, e o universo parecia conspirar contra. Ela sorriu, me deu umas dicas e seguimos.

O plano era tomar um café na Casa Monsenhor, mas as cadeiras eram distantes demais pra quem queria se manter grudado. Andamos um pouco até encontrar um canto mais propício: o Tambaqui de Banda virou cenário de beijo e de fim.

Key — vou chamá-la assim — me ensinou a beijar. E foi uma professora generosa. Lembro de poucos diálogos; nossas línguas falavam mais do que nossas vozes. O plano inicial era conversar sobre o fim, mas o desejo não respeita roteiros. O beijo não encaixou logo de cara, mas ali havia verdade.

Paguei a conta, demos um último beijo na praça e cada um seguiu seu rumo, como bons desconhecidos que haviam se amado por uma tarde. Anos depois, nos reencontramos. E o improvável aconteceu: ela virou minha segunda namorada. Aparentemente, os beijos melhoraram.